Wadah Khanfar – Os desafios do jornalismo nas áreas de conflito do Oriente Médio

No dia 6 de dezembro de 2016 aconteceu o seminário internacional Perspectivas sobre a Palestina em um Oriente Médio em Transformação, no Anfiteatro Nicolau Sevcenko, na Universidade de São Paulo.

Conversei com Wadah Khanfar, diretor da Al Jazeera entre os anos de 2003 e 2011¹ e atualmente presidente do Al Sharq Forum, sobre os desafios do jornalismo nas áreas de conflito do Oriente Médio.

wadahkhanfar_aljazeera
Wadah Khanfar / foto: Al Jazeera

Pergunto sobre os critérios mais importantes na escolha de um correspondente de guerra e ele responde: “penso que o critério mais importante ao escolher um jornalista para um determinado local – especialmente se esse local está em conflito – é que essa pessoa deva estar familiarizada com a cultura, com a língua, com o conflito em si e com a possibilidade de encontrar qualquer tipo de perigo e ser capaz de sobreviver.”

Khanfar destaca a importância de “não enviar ninguém que não esteja qualificado para fazer esse trabalho”, principalmente em regiões nas quais os conflitos são mais violentos.” “Alguns de nossos colegas foram mortos” recorda. “Então, o elemento mais importante, de acordo com a minha própria experiência é que a própria pessoa esteja ciente da realidade – que ela conheça a tradição, os costumes; a linguagem; que ela saiba se comunicar com as pessoas, em caso de necessidade.”

A comunicação com o público e o poder de síntese também são características fundamentais: “[é importante que o correspondente] interprete muito bem as mensagens e os eventos, fazendo uma análise que seja profunda e benéfica para o público.”

Lembro da matéria Correspondente internacional no Oriente Médio: entre o sonho e os desafios, publicada no blog De Olho na Carreira, onde o tema de jornalistas do sexo feminino é abordado: “Cavalcanti [Klester] acredita que a figura feminina ainda é discriminada nesses países. Clemesha [Arlene] explica que existe a busca de papel social dessas mulheres, a questão é que é uma luta recente. Por isso, a mulher que deseja trabalhar na região deve estar ciente de todo o preconceito que pode ser sofrido. Toueg [Gabriel] completa ‘Eu gosto de lembrar de um caso tristemente famoso de uma jornalista recente que estava cobrindo a primavera árabe no Cairo que foi afastada e estuprada por várias pessoas em uma praça. Ser mulher em uma região não só de conflito, mas especialmente onde há o machismo e que é patriarcal é complicado.'”

Pergunto então sobre a presença feminina nas áreas de conflitos: “sim, nós enviamos mulheres para cobrir os conflitos.” Khanfar recorda o caso de uma colega no Afeganistão: “quando cobri a Guerra em 2001, havia uma colega libanesa, que era realmente muito eficiente cobrindo as histórias locais, na cidade de Cabul.” E complementa: “além disso, recentemente a Al Jazeera enviou uma ótima correspondente para o Iêmen. […] O mesmo no Egito,  na Síria, no Iraque…”

“O elemento mais importante não é o sexo. É o conhecimento e a sabedoria.” Mas lembra que “em certas sociedades, você precisa ser ponderado ao tomar decisões. No Afeganistão, por exemplo, é preciso que uma mulher entreviste outra mulher. É provável que um homem não tenha esse acesso livremente.” Por fim, Khanfar adverte que “em certas áreas,  enviar uma mulher pode não ser a decisão mais sábia. O editor deve ser capaz de estimar as prioridades e conceber a base do pacote em muitos fatores, incluindo a condição dessa pessoa, seja do sexo feminino ou masculino, e sobreviver neste tipo de conflito.”

Sobre os desafios diários Khanfar revela: “temos problemas com todas as pessoas. Temos problemas com os governos, partidos políticos, organizações terroristas, temos problemas até com entidades sociais e culturais, como algumas tribos.”

Ele ressalta também a cobrança em adotar uma posição: “se a região que estamos vivendo está passando por uma transformação maciça, todos esperam que a Al Jazeera tome um lado, o que eventualmente pode não ser aceito pelo governo, partidos, organizações terroristas, enfim.”

Sobre os ataques, sofridos pela Al Jazeera, ele diz: “Isso é normal. É o preço que se paga para manter a independência e não agir ou fazer parte da propaganda. E a propósito, a maioria dos nossos jornalistas foram presos e deportados por governos.”

“Se vamos ser a voz de alguém, devemos ser a voz do público. E a voz dos indivíduos comuns, ao invés dos poderosos e daqueles que têm algum interesse por trás da cobertura da mídia” finaliza.

São Paulo, 6 de dezembro de 2016.

Notas:
1 Khanfar became Managing Director of the Al Jazeera Channel in 2003 and Director General of the Al Jazeera Network in 2006. He spoke at the 2011 TED Conference on the ongoing Arab Spring. On 20 September 2011, Khanfar announced on his official Twitter page that he was ‘moving on’ from Al Jazeera after leading the channel for 8 years. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Wadah_Khanfar Acesso em: 02 jan. 2017.

Referências:
Correspondente internacional no Oriente Médio: entre o sonho e os desafios. De Olho na Carreira. Disponível em: https://deolhonacarreira.com/2014/03/26/correspondente-internacional-no-oriente-medio-entre-o-sonho-e-os-desafios/ Acesso em: 20 nov. 2016.

30 anos de Speedball

Pepe Escobar publicou seu primeiro livro em 1987, pela L&PM. Três décadas depois, o então “crítico de música” da Folha seria tido como referência quando o assunto é Oriente Médio. Suas análises têm como ênfase os aspectos geopolíticos e as disputas das grandes potências por fontes de energia e recursos naturais. Como correspondente itinerante do site Asia Times Online (baseado em Honk Kong) manteve a coluna The Roving Eye, de 2000 a 2014, período em que realizou alguns dos trabalhos que marcaram sua carreira. No Afeganistão, entrevistou o líder anti-talibã de Aliança do Norte, Ahmad Shah Massoud, semanas antes do seu assassinato. Menos de duas semanas antes do 11 de setembro de 2001, quando se encontrava em áreas tribais do Paquistão, foi publicado seu artigo, cujo título soa algo profético: Get Osama! Now! Or else … (‘Pegue Osama! Agora! Se não …’). Escobar também foi um dos primeiros jornalistas a chegar a Cabul após a retirada do Taliban. Mais recentemente, elaborou reportagens sobre Iraque, Irã, Ásia Central, Estados Unidos e China.

Tem colaborado com a RT (Russia Today), The Real News (TRNN) e Al Jazeera. Também contribui para os sites Sputnik TomDispatch, OpEdNews, Strategic Culture Foundation, Counterpunch e Information Clearing House, entre outros websites – da América à Ásia Oriental. (Wikipedia)

Faremos, a seguir, uma  análise de Speedball, o livro que, juntamente com “nossas mil e uma escolhas cotidianas”,  “[…]conta melhor a história que vivemos do que cem conferências eruditas sobre política internacional” (p.12)

Speedball é um termo popular para a mistura de heroína ou morfina com cocaína ou metanfetamina. Esta é uma preparação potencialmente letal: a cocaína age como um estimulante, aumentando o pulso, mas seus efeitos passam mais rapidamente que aqueles de heroína ou morfina, que, em contrapartida, desaceleram o coração. Como resultado, é possível experimentar uma overdose tardia (tecnicamente, severa depressão respiratória) quando o estimulante passa e todos os efeitos da heroína ou morfina são sentidos isoladamente. Algumas vezes, outras combinações de estimulantes e sedativos são referidas como speedballs, como o uso de anfetaminas em conjunto a benzodiazepinas ou barbitúricos.

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Para quem não viveu nos anos 80, a narrativa parece distante. Você precisa se ambientar com as gírias, as referências, os noticiários, as músicas do momento. Mas não é excludente. Pepe convida o leitor para essa viagem. Se você não pular a dedicatória, “para Nicholas, 18 anos em 1999”, vai captar um ar convidativo logo nas primeiras páginas. Caso contrário, provavelmente abandonará a leitura antes de iniciar o segundo capítulo. 

O segundo ponto é o idioma: há passagens – sem tradução ou notas de rodapé – em português, inglês, espanhol, francês e italiano. “Inglês e francês aprendi quando criança. Espanhol aprendi lendo e italiano também, lendo e, quando eu estava na Itália, falando na rua.” (Pedras Rolando, 1984) É uma mistura. Onomatopeias e Caps Lock (aka caixa-alta) ajudam a definir a entonação. Assim como as reticências e os pontos -os vários pontos- ao longo da narrativa. 

Diálogos? Vários. E nunca está claro com quem Pepe dialoga. Se o autor dialoga consigo ou com seu alter ego.

O livro é repleto de descrições. De uma bailarina e de sua “body double” (p.46); de um farol (p.59); da visão que os estrangeiros têm do Brasil (p.69-71); do fechamento do jornal (p.77-78); da moda (p.97); de uma mulher, ou melhor, de uma mulher-deusa, em um capítulo inteiro – e seu fantasma permeando mais um – (cap 6 e 7). 

“O livro foi encomendado para compor uma trilogia de décadas [Coleção Olho da Rua], focalizando porta-vozes dos anos 50, 60, 70 e 80. Pepe descreveria os anos 80.” (O Estado de São Paulo, 1987). Mas em diversos momentos nos deparamos com trechos que parecem dialogar com a última década. Afinal, como diz Eduardo Bueno (no comentário da orelha do livro): “Pepe, como seu colega e amigo Fernando Naporano, é o ‘homem que todos gostam de odiar’. E por quê? Porque, como Naporano, ele está muito à frente da média da mídia. Porque ele é um dos únicos jornalistas em real conexão com o som, o mood, a velocidade dos anos 80. E quando o rebanho se aproxima, ele está noutra. Ao natural.”

  • O anonimato na internet: “Quem é outro? Uma presença indiferente. Não perturba. Não ingombra l’uscita. Cada um está protegido pela tela. Anonimato. Irresponsabilidade. […] Império do anonimato. Comportamentos flutuantes.” (p.15)
  • Um paralelo com o Twitter (tudo bem que ele esteja se referindo ao substantivo tweeter), muito antes da criação da rede social: “[…] demência sibilante dos tweeters mais ameaçadores do que os pássaros hitchcockianos.” (p.134)

E sim, tem diversas passagens que abordam – sem se aprofundar – os conflitos no Oriente Médio:

  • “Futebol é bola na rede. Descobriram, ‘les arrrrabes’… Altogether now, cantando juntos: Arafat, Abu Nidal, Kadafi il colonnello, rei Hussein, Khomeini. Mubarak, shatak, vamos acabar com essa palhaçada de intervenção, vamos arrumar o Líbano, acabar com a guerra Irã-Iraque, sanear o mercado petrolífero, depor os retrógrados, and here we go!” (p.18)

São 7. Capítulos, atos ou estágios. Estágios da droga no corpo: os primeiros capítulos são rápidos. Dilacerantes. É a cocaína, agindo como estimulante, aumentando o pulso das palavras. Seu efeito é rápido e o capítulo termina na velocidade de um raio. Vem então o efeito da heroína ou morfina, que, em contrapartida, desacelera o coração e a velocidade das palavras. São 35 páginas dedicadas à uma mulher – não uma mulher qualquer. Diferentemente de todos os personagens do livro, ela tem nome: Laure -. Speedball é culminado com uma overdose tardia, “where is Laure?”. A mulher-deusa dá lugar a um fantasma. À falta de ar, uma severa depressão respiratória. “A vida é um sonho do qual se desperta morrendo”(p.158), eventualmente com um “descerebrado irremediável atirador louco linha pequenos assassinatos” (p.168). Assim mesmo, sem vírgula ou ponto, para mostrar que a narrativa é atemporal, mas tem seu próprio timing.

É o mesmo Pepe que anos depois escreveria um artigo intitulado Irã, Sun Tzu e a Sádica Dominadora. Refere-se a Hillary Clinton: “Está na hora de encarar as coisas:  Hillary Clinton é uma tremenda sádica dominadora.” (ESCOBAR, 2016, p.129) Sempre há ironias, citações literárias ou referências musicais; seja nos artigos, nos livros, nas entrevistas ou participações em telejornais. Mas há, acima de tudo, seriedade e compromisso com o jornalismo. A divagação de Speedball se transforma em lema: “Uma última matéria, para honrar aquele texto também do velho e ainda altamente pilhável Hegel, na ‘Fenomenologia’, onde ele diz que o jornalismo é a forma mais bem acabada de atividade intelectual. Um jornalismo inteligente. Com classe, estilo. É claro. Urgência e exigência. Com inteligência.” (p.172)

Em 21, O século da Ásia, Pepe busca fundamentos para um questionamento que ele propõem dez anos antes, em Speedball: “E a Ásia? Foi apodrecida pela colonização – e pela sua própria promiscuidade, vide banhos de massa no Ganges… Vive hoje entre a fome, a depravação e jatos esparsos de um comunismo puritano…” (p.71). Se Speedball “é um exercício de estilo e condensa em 176 páginas todos os maneirismos que imortalizaram o estilo deste lendário jornalista paulista, 21 é outra história” (Para um mestre. Com carinho, 2012). A análise de 21, O Século da Ásia, porém, fica para um próximo post. “Quando atravessamos do Ocidente para o Oriente, o roteiro é cortesia de Lewis Carroll: Alice atravessa para o outro lado do espelho.” (ESCOBAR, 1997, p.12) A aventura é longa e…”oh my ears and whiskers, how late it’s getting.”

Agradecimentos:

Ao Sebo Balaio Digital (com loja física em Porto Alegre-RS, mas também presente na web), pelo exemplar de Speedball, esgotado na editora e raramente disponível em sebos, bibliotecas, etc.

Ao jornalista Alexandre Pereira, por escanear as entrevistas do Pepe Escobar dos anos 80 e pelo sensível depoimento, Para um mestre. Com carinho, em sua página na web.

pepeescobar_speedball_2
Livro Speedball e matéria do jornal O Estado de S.Paulo / foto: Alice Lopes

Referências:

ESCOBAR, Pepe. Speedball. São Paulo: L&PM, 1987.

ESCOBAR, Pepe. 21, O século da Ásia. São Paulo: Iluminuras, 1997.

ESCOBAR, Pepe. Império do Caos. Rio de Janeiro: Revan, 2016.

O que é o que é? É Speed-ball e não é? O Estado de S.Paulo, 03 dez. 1987. Disponível em: http://blogdoantonicodaigreja.blogspot.com.br/2013/04/o-que-e-o-que-e-e-speed-ball-e-nao-e-o.html Acesso em 24 nov. 2016.

Carlos Roque entrevista Pepe Escobar. Pedras Rolando, São Paulo: Global Editora, 1984 (Entrevista realizada em São Paulo, 08 nov. 1983). Disponível em: http://blogdoantonicodaigreja.blogspot.com.br/2011/01/carlos-roque-entrevista-pepe-escobar.html  Acesso em 25 nov. 2016.

Para um mestre. Com carinho. Recanto das Letras. Enviado por Alexandre Pereira em 22 mar. 2012. Reeditado em 26 fev. 2014. Disponível em: http://www.recantodasletras.com.br/ensaios/3568502 Acesso em 01 jan. 2017.

Roubei um carro e desembarquei no centro do mundo. In: Alma Beat. Vários autores. São Paulo: L&PM, 1984. Disponível em: http://subcultura.mitotes.eco.br/sub/letras/beat_escobar.shtml Acesso em 28 nov. 2016.

Em 1984, ‘bate-boca’ entre roqueiros e o crítico Pepe Escobar agitou o Jornal Folha de São Paulo. Por Luiz Carlos Ferreira, 29 out. 1984. Acervo Folha, 07 out. 2016 . Disponível em: http://acervofolha.blogfolha.uol.com.br/2016/10/07/bate-boca-entre-roqueiros-e-critico-agitou-a-folha/ Acesso em 01 jan. 2017.

Em 1984, ‘bate-boca’ entre roqueiros e o crítico Pepe Escobar agitou o Jornal Folha de São Paulo (Barbieri Comenta). Disponível em: http://www.celsobarbieri.co.uk/index.php?option=com_content&view=article&id=792:em-1984-bate-boca-entre-roqueiros-e-o-critico-pepe-escobar-agitou-a-folha&catid=28:tunel-do-tempo&Itemid=43  Acesso em  23 nov. 2016

Pepe Escobar: Sua última empreitada foi passar dois meses em território afegão dormindo sob bombardeios. São Paulo: Trip FM, 2002 (Publicado em 27 ago. 2010). Disponível em: http://revistatrip.uol.com.br/trip-fm/pepe-escobar Acesso em 25 nov. 2016.

Wikipedia:

Pepe Escobar. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Pepe_Escobar Acesso em 01 jan. 2017.

Speedball. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Speedball  Acesso em 01 jan. 2017.