Documentário: “The Fog of War”

Em português, Sob a Névoa da Guerra,

A trilha sonora é obra de Philip Glass.

O documentário foi exibido no Ciclo de Cinema da UFABC, no dia 5 de julho de 2017, em parceria com a professora Bruna Muriel, que ministra, no segundo quadrimestre de 2017, a disciplina obrigatória do curso de Relações Internacionais, “Segurança Internacional em Perspectivas Históricas e Desafios Contemporâneos”.

O que esperar da Copa do Mundo no Qatar?

Em 2010 foi anunciado que o Qatar seria o país sede da Copa do Mundo de 2022.

Em 2017, porém,

qatar_worldcup
Defiant Qatar Players Face FIFA Fine for Wearing T-Shirts Bearing Emir’s Face, Sputnik, 14.06.2017

No perfil do Twitter do QFA (Qatar Football Association) foram publicadas uma série de fotografia dos jogadores vestindo, em campo, a camiseta do Emir.  @QFA, 13.06.2017

O analista geopolítico Pepe Escobar comenta a crise do Qatar no Facebook

Pepe Escobar, Facebook, 23.06.2017

Matéria NEO: “Tehran Was Always America’s and Thus the Islamic State’s Final Destination”

http://journal-neo.org/2017/06/10/tehran-was-always-americas-and-thus-the-islamic-states-final-destination/

10.06.2017

Teerã sempre foi o destino final dos EUA e, portanto, do ISIL

10/6/2017, Toni Cartalucci, New Eastern Outlook, NEO

Foram vários mortos e muitos feridos nos ataques terroristas coordenados contra a capital do Irã, Teerã. Tiros e bombas no Parlamento iraniano e no mausoléu do Aiatolá Khomeini.

Segundo a Reuters, o chamado “Estado Islâmico” reivindicou a autoria do ataque, desencadeado apenas poucos dias depois de outro ataque terrorista, aquele em Londres. O Estado Islâmico também reivindicou autoria da violência em Londres, apesar de já haver provas de que os três suspeitos de envolvimento já serem conhecidos da segurança e das agências de inteligência britânicas, há muito tempo. Simplesmente teriam sido deixados à vontade para organizar os ataques e atacar.

É muito menos provável que o governo de Teerã acoberte terroristas – Teerã há anos luta contra o terrorismo nas fronteiras do país e na Síria, numa guerra viciosa, que já se arrasta há seis anos alimentada por armas, dinheiro e mercenários dos EUA, da Europa e do Golfo Persa.

Violência armada contra Teerã sempre foi o objetivo confesso de políticos norte-americanos

Os recentes ataques terroristas em Teerã são a manifestação literal da política externa dos EUA. A criação de uma força ‘representante’ dos EUA para fazer guerra contra o Irã e criar um paraíso seguro para os norte-americanos em terras iranianas é política há muito tempo declarada dos norte-americanos. O atual caos que consome Síria e Iraque – e em menos extensão o sudeste da Turquia – é resultado direto da tentativa dos EUA para criar uma base de operações a partir da qual lançar sua guerra ‘por procuração’ contra o Irã.

Num documento de 2009 da Brookings Institution, intitulado Which Path to Persia? Options for a New American Strategy toward Iran [Qual o caminho para a Pérsia? Opções para uma nova estratégia norte-americana para o Irã], aquele think-tank já considerava a possibilidade de usar a organização Mujahedin-e Khalq (MEK), então listada pelo Departamento de Estado como organização estrangeira terrorista, como ‘representante local’ dos EUA para instigar uma insurgência armada ampla, não diferente da que hoje se vê acontecer na Síria.

O relatório dizia explicitamente:

Os EUA podem também tentar promover grupos da oposição iraniana, provendo o necessário apoio, para convertê-los em insurgências e mesmo ajudá-los a derrotar militarmente as forças do regime dos clérigos. Os EUA podem trabalhar com grupos como o Conselho Nacional de Resistência do Irã [ing. National council of resistance of Iran (NCRI) que tem base no Irã e sua ala armada os Mujahedin-e Khalq (MEK), auxiliando os seus milhares de membros os quais, sob o regime de Saddam Husayn foram armados e conduziram operações de guerrilha e terroristas contra o regime dos clérigos. Embora o NCRI esteja hoje desarmado, como se supõe, essa situação pode ser rapidamente modificada.

Os políticos da Brookings admitiram, nesse relatório, que o MEK foi responsável por mortes de militares, políticos e civis norte-americanos e iranianos, em ações indiscutivelmente terroristas. Apesar disso, e de admitir que o MEK continuava a ser organização terrorista, os analistas da Brookings recomendavam que fossem tirados da lista do Departamento de Estado dos EUA de Organizações Terroristas Estrangeiras, para que pudessem ser apoiado e participar de ações para mudança armada de regime.

A partir dessas recomendações e de lobbying intenso, o Departamento de Estado dos EUA acabaria por excluir o MEK daquela lista em 2012, e o grupo receberia abertamente significativo apoio dos EUA. Entre esses apoiadores estavam vários membros da campanha eleitoral do hoje presidente Donald Trump – incluindo Rudy Giuliani, Newt Gingrich e John Bolton.

Mas apesar de todos esses esforços, os terroristas do MEK não conseguiram, nem naquele momento nem hoje, alcançar o pretensioso objetivo de desencadear insurreição ampla contra o governo de Teerã, o que exigiu que se usassem outros grupos armados. O documento de 2009 da Brookings fazia referência a outros candidatos, numa seção intitulada “Possíveis agentes locais étnicos”, e listava grupos árabes e curdos como candidatos possíveis a agentes ‘locais’ dos EUA numa guerra à distância dos EUA contra Teerã.

Numa sessão intitulada “Conseguir um conduíte e um paraíso seguro”, Brookings escreve:

Igualmente importante (e com a mesma dificuldade potencial) será encontrar país vizinho disposto a servir como conduíte para a ajuda dos EUA para o grupo insurgente, e para prover um paraíso seguro onde o grupo possa treinar, planejar, organizar, recuperar-se e se reabastecer.

Para a guerra dos EUA na Síria, Turquia e Jordânia cumprem esse papel. Para o Irã, é claro que os esforços dos EUA terão de se focar em estabelecer conduítes e paraísos seguros a partir da província Baloquistão, a sudoeste do Paquistão, e das regiões dominadas pelos curdos, no norte do Iraque, leste da Síria e sudeste da Turquia – precisamente onde o atual levante está sendo instigado por intervenção dos EUA, tanto abertamente quanto cladestinamente.

Brookings notou em 2009 que:

Seria difícil encontrar ou construir uma insurgência com alta probabilidade de sucesso. Os atuais candidatos são fracos e divididos, e o regime iraniano é muito forte para os desafiantes internos e externos potenciais.

Um grupo não mencionado pela Brookings em 2009, mas que existe na própria região onde os EUA procuram criar um conduíte e paraíso seguro para guerra à distância com o Irã, é o Estado Islâmico. Apesar do muito que se diz que seria organização terrorista independente sustentada pelo mercado negro de petróleo, sequestros e impostos locais, a capacidade de combate do grupo, redes logísticas e alcance operacional demonstram que, sim, eles recebem rico patrocínio estatal.

O ‘representante’ perfeito, perfeitos conduíte e paraíso seguro

O Estado Islâmico, com tentáculos que vão até o Irã, o sul da Rússia e até a China ocidental era ‘representante’ possível e, mais que isso, seria a progressão inevitável e lógica da política dos EUA como exposta pela Brookings em 2009 e atentamente executada, como se pode ver, até hoje.

O Estado Islâmico é o perfeito ‘representante à distância’ [ou ‘procurador’], como conduíte ideal e paraíso seguro para fazer a guerra dos EUA contra o Irã e até mais. Cercando cada área de que o Estado Islâmico se apossa, há as bases militares dos EUA, inclusive as que foram construídas ilegalmente no leste da Síria. Tão logo comece a guerra que os EUA planejam fazer contra o Irão, aqueles ‘agentes’ imediatamente – por coincidência! – logo se coordenarão contra Teerã, assim como estão sendo hoje coordenadas ‘por coincidência’ contra Damasco.

Usar terrorismo, extremistas e ‘agentes/procuradores à distância’ para pôr em prática políticas exteriores dos EUA, e usar extremistas objetos do mesmo tipo de doutrinação que o Estado Islâmico e a Al Qaeda foram táticas definitivamente comprovadas durante os anos 1980, quando os EUA, com ajuda de Arábia Saudita e Paquistão – usou a Al Qaeda para tentar expulsar as forças soviéticas do Afeganistão. Esse exemplo é até mencionado claramente pelos políticos da organização Brookings, como modelo a partir do qual se criar outra guerra ‘por procuração’ – agora contra o Irã.

Para os EUA, não há força mais bem situada para fazer as vezes da Al-Qaeda que seu sucessor o Estado Islâmico. Os políticos dos EUA demonstraram desejo de usar organizações terroristas conhecidas para fazer guerras por procuração, à distância, contra nações-estados que os EUA definam como alvos, o que já foi feito no Afeganistão, e já organizaram claramente o tabuleiro do jogo geopolítico em torno do Irã, para facilitar aquela velha agenda já exposta em 2009. Com terroristas agora matando pessoas em Teerã, impossível não ver que a mesma agenda continua a avançar.

O envolvimento do Irã no conflito sírio ilustra que Teerã sabe perfeitamente dessa conspiração e já cuida ativamente de se defender contra ela, dentro e além das próprias fronteiras. A Rússia também é alvo explicitado da guerra à distância, por procuração, na Síria, e o país também se envolveu na solução daquele conflito, para deter a guerra na Síria, antes de ela se expandir.

O papel da China, pequeno, mas crescente, está diretamente conectado à inevitabilidade de essa instabilidade espalhar-se e alcançar a província Xianjiang, no leste.

Por mais que atos terroristas na Europa, inclusive o recente ataque em Londres, sejam expostos como ‘provas’ de que o Ocidente ‘também’ estaria sendo convertido em alvo do Estado Islâmico, evidências mostram realidade bem diferente. Os ataques, muito mais provavelmente, têm o objetivo de gerar negabilidade plausível.

Na realidade, o Estado Islâmico – como antes dele a Al-Qaeda – depende de vastíssimo patrocínio de vários estados, hoje pago por EUA, Europa e seus aliados regionais no Golfo Persa. É patrocínio que todos esses podem, se quiserem – expor e encerrar. Simplesmente não o fazem, porque a ação desses grupos terroristas é importante para o projeto de hegemonia regional e global daqueles seus patrocinadores.

O documento da Brookings em 2009 é confissão datada e assinada de que o ocidente há muito tempo cogita de usar o terrorismo como ferramenta geopolítica. Enquanto as manchetes dos veículos da mídia-empresa ocidental insistem que nações como Irã, Rússia e China ameaçariam a estabilidade global, vai-se tornando cada dia mais claro que quem faz isso é o próprio ocidente, na luta insana por preservar a própria hegemonia global.

Matéria Oil Price: “I wouldn’t care if the oil price is zero” 

http://oilprice.com/Energy/Oil-Prices/Saudi-Finance-Minister-I-Wouldnt-Care-If-The-Oil-Price-Is-Zero.html

Ministro das Finanças da Arábia Saudita


“Em 2030, não nos preocupará que o preço do petróleo chegue a zero”
23/5/2017, Haley Zaremba,
OilPrice

“Reproduzo esse postado na esperança de que atraia comentários do público bem informado, especialmente à luz do que parece não ser mais que pensamento desejante [wishful thinking] sobre a rapidez com que o país pode(ria) mudar toda a configuração da própria economia”
(Yves Smith, in
Naked Capitalism, 25/5/2017)

“Se não presta para a Arábia Saudita, não presta pro Brasil dos Meirellesianos e Goldfajnianos, que é tudo a lesma lerda. Quem mandou a Arábia Saudita baixar os preços do petróleo foram “Obama e suas Harpias“, porque acharam ou q, com isso, facilmente quebrariam Rússia e Venezuela e, com sorte, também o pré-sal do Brasil. Proposta EXCELENTE, a de Obama! [risos] Só até agora já quebrou os EUA e pode quebrar até a Arábia Saudita. Rússia vai muito bem e, no Brasil e na Venezuela, a luta continua.” (Entreouvido no lixão da Vila Vudu)

O vice-príncipe coroado saudita Mohammed bin Salman expôs a ambiciosa “Visão 2030” da economia nacional, em abril, numa entrevista à rede Al-Arabiya. O mapa do caminho deixa ver ampla variedade de reformas econômicas que se espera que completem a transição da Arábia Saudita para longe do petróleo e na direção de quadro mais amplo de investimentos.

Com a economia da Arábia Saudita já sofrendo com até aqui 18 meses de declínio nos preços do petróleo e taxas de desemprego sempre crescentes, os governantes sauditas planejam com vistas a um futuro no qual não tenham de preocupar-se com preços de petróleo. Comentando os planos delineados na Visão 2030, o ministro das finanças saudita Mohammed Al Jadaan disse à CNN: “Na verdade não nos preocupamos muito com o preço de 40, 45, 50, 55 naquele momento, porque já estaremos bem avançados na trilha rumo à independência em relação ao preço do petróleo… Estamos planejando pôr fim, completamente, àquela dependência sob a qual vivemos nos últimos 40, 50 anos. Esperamos que, em 2030, já pouco nos preocuparemos se o preço do petróleo chegar a zero.”

Essa “Visão 2030” propõe uma restruturação da economia que em 2030, em teoria, já teria criado 6 milhões de empregos fora do petróleo e em 2020 já estaria gerando $100 bilhões ao ano de renda adicional à do petróleo reduzindo subsídios para gasolina, eletricidade e água e introduzindo um novo imposto sobre valor agregado e iniciativas para promover indústrias distantes do petróleo, como mineração e produção de armas e equipamentos militares em geral. Há também ideias grandiosas para o que seria a maior Initial Public Offering (IPO) do mundo para a Aramco (a maior empresa de petróleo do mundo) e para que se estabeleça o maior fundo soberano do mundo, com mais de $2 trilhões para investir em ampla variedade de iniciativas (sobre isso verKuwait: Deeper Cuts Are On The Table).

Essas propostas, já notáveis pelas dimensões, são especialmente radicais num país no qual o petróleo responde por 90% do PIB. Mas permanece o problema de verificar se seriam propostas realistas para a Arábia Saudita, cujo déficit fiscal deve chegar esse ano a 13,5% do PIB, depois de mais de um ano de preços do petróleo sempre em queda.

O príncipe bin Salman, de 30 anos, também disse acreditar que o plano poderia até ser cumprido em menos tempo, com a dependência do petróleo já eliminada em 2020 em seu país (em entrevista que The Economist descreveu como mais uma manifestação do“otimismo maníaco, que caracteriza a ‘jovem guarda’ encarregada de propor políticas na corte saudita” [no Brasil é velha guarda, velhíssima]).

A Visão 2030 vem carregada de sugestões políticas vagas e declarações de intenções pró-empreendimentos, mas não traz nem diretivas claras nem estratégias detalhadas. Os estrategistas políticos sauditas prometem já há meses melhores indicações logísticas, mas até agora nada se viu nessa direção.

Já há décadas todos os esforços para separar a economia saudita e o petróleo como única fonte têm encontrado oposição, que vai do total desinteresse ao total desdém. Para poder aspirar a algum sucesso, a Visão 2030 só pode contar com a capacidade de bin Salman para mobilizar a juventude saudita e instilar ali algum desejo de explorar novos campos. Como o mais jovem secretário da Defesa em todo o mundo com ares ‘jovens’ e forte presença nas mídias sociais, bin Salman talvez tenha os atributos necessários para essa empreitada.

Diversificar a economia da Arábia Saudita é também a resposta para o crescente desemprego que se observa nas faixas mais jovens da população. Timothy Callen, diretor-assistente do Departamento para Oriente Médio e Ásia Central do FMI, diz que reduzir o desemprego entre a população saudita mais jovem é um dos principais desafios da economia esse ano, com os números chegando já a 12% em termos de desemprego nacional, e a 33,5% entre jovens – e aumentando sempre, na medida em que mais e mais jovens sauditas chegam à idade de precisar trabalhar.

Autoridades sauditas já disseram que as ‘reformas’ propostas em Visão 2030 só conseguirão fazer o desemprego baixar no máximo 7%, com o número de mulheres na força de trabalho já crescendo, dos iniciais 22% para 30%, por resultado de melhor formação e novas oportunidades. O Centro Al-Bayan para Planejamento e Estudos criticou a timidez desses objetivos, na comparação com a desmedida ambição de Visão 2030 como projeto em geral: “o tanto que resistem a promover as reformas sociais e políticas realmente indispensáveis como base para reformas econômicas faz duvidar da capacidade da Arábia Saudita para diversificar a economia e atrair o indispensável investimento estrangeiro.”

Para 2030, o mesmo ano em que bin Salman diz que a Arábia Saudita terá alcançado a ‘independência do petróleo’, especialistas preveem que o desemprego já terá chegado a mais de 42% dado o continuado aumento da população. São duas visões muito diferentes para a mesma Arábia Saudita, mas uma coisa não muda: o país precisará de mais do que ‘visões’, para poder cogitar de futuro melhor.

O Estado Islâmico, por Sérgio Utsch

Série de reportagens do jornalista Sérgio Utsch, veiculdas no Jornal do SBT.

sbt-exército-iraque-estado-islâmico

http://www.sbt.com.br/jornalismo/correspondentes/noticias/5/89569/Correspondente-Sergio-Utsch-vai-ao-Iraque-para-cobrir-a-Batalha-de-Mossul.html
02.05.2017

http://www.sbt.com.br/jornalismo/correspondentes/noticias/4/89669/Exclusivo-SBT-acompanha-de-perto-a-batalha-contra-o-Estado-Islamico-no-Iraque.html
04.05.2017

http://www.sbt.com.br/jornalismo/correspondentes/noticias/4/89712/Batalha-de-Mossul-Familias-enfrentam-drama-para-escapar-do-Estado-Islamico.html
05.05.2017

http://www.sbt.com.br/jornalismo/correspondentes/noticias/3/89742/Exercito-de-mulheres-garante-seguranca-no-norte-do-Iraque.html
06.05.2017

http://www.sbt.com.br/jornalismo/correspondentes/noticias/3/89757/Equipe-do-SBT-entra-em-rede-subterranea-construida-pelo-Estado-Islamico.html
08.05.2017

http://www.sbt.com.br/jornalismo/correspondentes/noticias/2/89784/Destruida-pelo-Estado-Islamico-maior-cidade-crista-iraquiana-fica-deserta.html
08.05.2017

http://www.sbt.com.br/jornalismo/correspondentes/noticias/2/89821/Criancas-sao-as-maiores-vitimas-da-guerra-contra-o-Estado-Islamico-no-Iraque.html
09.05.2017

Wadah Khanfar – Os desafios do jornalismo nas áreas de conflito do Oriente Médio

No dia 6 de dezembro de 2016 aconteceu o seminário internacional Perspectivas sobre a Palestina em um Oriente Médio em Transformação, no Anfiteatro Nicolau Sevcenko, na Universidade de São Paulo.

Conversei com Wadah Khanfar, diretor da Al Jazeera entre os anos de 2003 e 2011¹ e atualmente presidente do Al Sharq Forum, sobre os desafios do jornalismo nas áreas de conflito do Oriente Médio.

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Wadah Khanfar / foto: Al Jazeera

Pergunto sobre os critérios mais importantes na escolha de um correspondente de guerra e ele responde: “penso que o critério mais importante ao escolher um jornalista para um determinado local – especialmente se esse local está em conflito – é que essa pessoa deva estar familiarizada com a cultura, com a língua, com o conflito em si e com a possibilidade de encontrar qualquer tipo de perigo e ser capaz de sobreviver.”

Khanfar destaca a importância de “não enviar ninguém que não esteja qualificado para fazer esse trabalho”, principalmente em regiões nas quais os conflitos são mais violentos.” “Alguns de nossos colegas foram mortos” recorda. “Então, o elemento mais importante, de acordo com a minha própria experiência é que a própria pessoa esteja ciente da realidade – que ela conheça a tradição, os costumes; a linguagem; que ela saiba se comunicar com as pessoas, em caso de necessidade.”

A comunicação com o público e o poder de síntese também são características fundamentais: “[é importante que o correspondente] interprete muito bem as mensagens e os eventos, fazendo uma análise que seja profunda e benéfica para o público.”

Lembro da matéria Correspondente internacional no Oriente Médio: entre o sonho e os desafios, publicada no blog De Olho na Carreira, onde o tema de jornalistas do sexo feminino é abordado: “Cavalcanti [Klester] acredita que a figura feminina ainda é discriminada nesses países. Clemesha [Arlene] explica que existe a busca de papel social dessas mulheres, a questão é que é uma luta recente. Por isso, a mulher que deseja trabalhar na região deve estar ciente de todo o preconceito que pode ser sofrido. Toueg [Gabriel] completa ‘Eu gosto de lembrar de um caso tristemente famoso de uma jornalista recente que estava cobrindo a primavera árabe no Cairo que foi afastada e estuprada por várias pessoas em uma praça. Ser mulher em uma região não só de conflito, mas especialmente onde há o machismo e que é patriarcal é complicado.'”

Pergunto então sobre a presença feminina nas áreas de conflitos: “sim, nós enviamos mulheres para cobrir os conflitos.” Khanfar recorda o caso de uma colega no Afeganistão: “quando cobri a Guerra em 2001, havia uma colega libanesa, que era realmente muito eficiente cobrindo as histórias locais, na cidade de Cabul.” E complementa: “além disso, recentemente a Al Jazeera enviou uma ótima correspondente para o Iêmen. […] O mesmo no Egito,  na Síria, no Iraque…”

“O elemento mais importante não é o sexo. É o conhecimento e a sabedoria.” Mas lembra que “em certas sociedades, você precisa ser ponderado ao tomar decisões. No Afeganistão, por exemplo, é preciso que uma mulher entreviste outra mulher. É provável que um homem não tenha esse acesso livremente.” Por fim, Khanfar adverte que “em certas áreas,  enviar uma mulher pode não ser a decisão mais sábia. O editor deve ser capaz de estimar as prioridades e conceber a base do pacote em muitos fatores, incluindo a condição dessa pessoa, seja do sexo feminino ou masculino, e sobreviver neste tipo de conflito.”

Sobre os desafios diários Khanfar revela: “temos problemas com todas as pessoas. Temos problemas com os governos, partidos políticos, organizações terroristas, temos problemas até com entidades sociais e culturais, como algumas tribos.”

Ele ressalta também a cobrança em adotar uma posição: “se a região que estamos vivendo está passando por uma transformação maciça, todos esperam que a Al Jazeera tome um lado, o que eventualmente pode não ser aceito pelo governo, partidos, organizações terroristas, enfim.”

Sobre os ataques, sofridos pela Al Jazeera, ele diz: “Isso é normal. É o preço que se paga para manter a independência e não agir ou fazer parte da propaganda. E a propósito, a maioria dos nossos jornalistas foram presos e deportados por governos.”

“Se vamos ser a voz de alguém, devemos ser a voz do público. E a voz dos indivíduos comuns, ao invés dos poderosos e daqueles que têm algum interesse por trás da cobertura da mídia” finaliza.

São Paulo, 6 de dezembro de 2016.

Notas:
1 Khanfar became Managing Director of the Al Jazeera Channel in 2003 and Director General of the Al Jazeera Network in 2006. He spoke at the 2011 TED Conference on the ongoing Arab Spring. On 20 September 2011, Khanfar announced on his official Twitter page that he was ‘moving on’ from Al Jazeera after leading the channel for 8 years. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Wadah_Khanfar Acesso em: 02 jan. 2017.

Referências:
Correspondente internacional no Oriente Médio: entre o sonho e os desafios. De Olho na Carreira. Disponível em: https://deolhonacarreira.com/2014/03/26/correspondente-internacional-no-oriente-medio-entre-o-sonho-e-os-desafios/ Acesso em: 20 nov. 2016.